Entrevista Clemência Beatriz Wolthers

Clemência Wolthers

Entrevista
Clemência Beatriz Wolthers

Clemência Beatriz Wolthers dedicou 45 anos de trabalho ao escritório Pinheiro Neto Advogados (PNA). Ingressou no PNA em 1962, tornando-se sócia em 1973, quando assumiu a administração do escritório, como sócia-gerente, função que exerceu até 2005, integrando também o Comitê Diretivo como membro permanente, entre 1984 e 2005. É uma das fundadoras do CESA (Centro de Estudos das Sociedades de Advogados) tendo sido presidente por cinco gestões, e atualmente exerce o cargo de Diretora Executiva. Tem participação ativa nas Comissões de Sociedades de Advogados tanto na OAB/SP quanto no Conselho Federal da OAB, bem como da Comissão de Exame de Ordem na OAB/SP. Tem vários artigos publicados sobre Administração Profissional e Gestão Estratégica na Advocacia. 

SB: Dra. Clemência, fale-nos um pouco sobre a sua carreira e as principais lições que tirou nestes anos de advocacia e gestão legal.

CW: A minha trajetória profissional é simples de relatar uma vez que tive um único "emprego" nos 45 anos de atividades profissionais, sempre no meio jurídico. Toda minha carreira se desenvolveu em PINHEIRO NETO ADVOGADOS - PNA, onde entrei em 1962 apenas para preparar um tema de "Documentação Jurídica" e onde acabei ficando até 2006. Passei por todas as funções, níveis hierárquicos e categorias da advocacia, chegando ao cargo maior como Sócia Administradora e membro do Grupo Executivo e do Comitê Diretivo de PNA.

SB: Quais as diferenças mais significativas que a senhora pode pontuar comparando a advocacia da década de 70 com os modelos atuais de gestão de escritórios?

CW: Na década de 70 as principais Sociedades de Advogados iniciaram o período de maior desenvolvimento, crescimento e internacionalização. Poucas estavam preparadas para essa realidade, provocada pelos investimentos e por exigência das empresas do exterior que vieram para o Brasil e que exigiam receber Serviços Jurídicos do mesmo padrão e qualidade dos recebiam nas suas matrizes.Essas empresas-clientes vinham, geralmente, acompanhadas dos seus advogados da matriz, que precisavam trabalhar em parceria com os advogados brasileiros contratados pela filial local, no mesmo ritmo e qualidade. As sociedades de Advogados tiveram que se adaptar, criar soluções, inovar métodos e sistemas que nem existiam disponíveis no mercado local, exigindo um grande esforço por parte dos sócios responsáveis pela administração e planejamento dos escritórios. Atualmente, a concorrência aumentou, os métodos e sistemas de trabalho e tecnológicos se difundiram e estão ao alcance dos interessados. A integração de escritórios nacionais com estrangeiros é muito maior e até a nível de parcerias ou associações e a gestão se profissionalizou, passando a ser exercida, na sua parte operacional, por profissionais da área de Administração.

SB: Em sua opinião, o que realmente deve acontecer para que um acordo entre sócios funcione realmente?

CW: Um Acordo de Quotistas, ou um Pacto Societário, só tem chances de prevalecer se for resultado de um trabalho de convencimento e de reconhecimento da sua importância e da sua necessidade para a sobrevivências da sociedade, discutido e aprovado por todos os sócios. Precisa ser eminentemente transparente nas suas normas de gestão, criando oportunidades e regras conhecidas e obedecidas por todos. Os sócios de uma Sociedade de Advogados não são apenas sócios patrimoniais, mas são eminentemente sócios de trabalho que colocam os seus talentos e seus conhecimentos jurídicos para o atendimento das questões dos clientes. Esses sócios precisam saber o que a sociedade espera deles e o que eles podem esperar da sociedade.

SB: Quais são os principais quesitos a serem observados para que a banca aceite novos sócios?

CW: O novo sócio deve entrar para acrescentar e não para dividir o que já existe. Ele precisa apresentar um plano, uma perspectiva diferenciada de crescimento e evolução da sociedade. Cada sociedade tem a sua escala de valores para considerar a conveniência de admitir novos sócios, mas basicamente o que se espera é que o novo sócio, além de ser um excelente advogado, seja um agregador, que tenha liderança, que saiba compartilhar conhecimentos, que saiba ensinar e aprimorar a equipe e, principalmente, que tenha características de empreendedor.

SB: Na sociedade de advogados, como se deve conduzir a administração social da banca? Quais os tipos de administração que a senhora julga mais adequados?

CW: A Sociedade de Advogados é uma sociedade muito especial, com características bem diferentes das de qualquer outra sociedade de prestação de serviços. Ela é regida por lei própria, que é o Estatuto da Advocacia e da OAB (lei n. 8.906/94, seu Regulamento e Provimentos). Por isso, a sua administração deve ser também diferenciada, uma vez que ela se limita a gerenciar o trabalho dos advogados, que são os únicos prestadores de serviços advocatícios. Consideram-se dois tipos, ou níveis, de Administração que são a Administração Profissional, que cabe ao sócio gerente, e a operacional, que pode ser delegada a profissional especializado. Essa norma está clara no artigo 3. do Provimento 112/06 do C.F. da OAB.

SB: Que riscos devem ser evitados em uma sociedade de advogados para que não existam muitos conflitos internos entre sócios e mesmo entre equipes?

CW: O ideal é conseguir criar e manter um clima de parceria e cumplicidade entre os sócios, de forma que o maior interesse seja pela sociedade e não pelos indivíduos. Definir bem as áreas de atuação e o papel reservado para cada sócio na sociedade. Criar e dar oportunidades e exigir resultados. Atribuir aos sócios uma participação sobre os resultados da sociedade, além dos resultados pessoais. Todos devem acreditar que se a sociedade vai bem eles também irão bem.

SB: Qual sua opinião sobre a entrada de bancas estrangeiras no país? Isto significa algum tipo de ameaça à advocacia ou serve como estímulo ainda maior ao aperfeiçoamento da administração legal?

CW: A questão da entrada de escritórios estrangeiros no Brasil é uma questão legal e não de mercado. A lei em vigor proíbe o exercício da advocacia por quem não é Advogado e define como Advogado aquele que é formado por Faculdade e Direito no Brasil e que é aprovado no Exame da OAB. O advogado estrangeiro não preenche esses requisitos legais e por isso não pode advogar no Brasil. Os escritórios estrangeiros são muito bem vindos e recepcionados como Consultores em Direito Estrangeiro, registrados como tal perante a OAB. As Sociedades de Advogados trabalham constantemente em conjunto com escritórios de outros países, cada um respeitando os limites da sua atuação no Direito Pátrio.

SB: Para finalizar, que dicas a senhora deixaria para quem planeja fazer parte de uma banca de longa duração?

CW: A Sociedade de Advogados que pretenda continuar no tempo e perpetuar-se como uma marca, ou modelo de prestação de serviço advocatício tem que investir muito na sua identidade, na sua institucionalização e deve criar estilo próprio de atuação. O maior bem e o bem comum de todos os integrantes é a própria sociedade. O cliente deve sentir-se atendido pela equipe, e deve sentir que a equipe funciona de forma coesa e integrada, ainda que ele tenha o seu advogado preferencial que o atende pessoalmente. São duas dimensões de atendimento que caracterizam a contratação de uma sociedade de advogados personalizada e institucionalizada.

FONTE: site http://www.estrategianaadvocacia.com.br