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28/06/2018


Ser “Sem Gravata” é falar descomplicado o que antes falávamos em mais palavras. É se tornar flexível, e não enclausurado em torres de marfim compostas por ideias (e pessoas) “mofadas” pelo atraso mental, pela “gravata” na cabeça que tanto combatemos. Ser “Sem Gravata” é enxergar o Direito não como um fim em si mesmo, mas como uma ferramenta potente, capaz de fazer crescer indivíduos, empresas e países.

Mas desengravatar-se, antes de significar uma “atitude”, também pode se traduzir em deixar de pertencer exclusivamente a um certo “molde”. No caso deste que aqui escreve, do “molde” de ser branco, homem, heterossexual e relativamente bem de vida.

Por tempo demais o Direito foi o refúgio do estereótipo de classe no Brasil. Perpetuamos em nossa profissão a barreira tão visível que separa o rico do pobre, o branco do negro e a mulher do homem.

Certo, mais negros se juntaram às nossas fileiras. O Direito hoje recebe novas advogadas que colegas do sexo masculino. E o tema LGBT, antes confinado a piadas e à discriminação ostensiva, ganhou as salas de reunião e as conversas sérias de grupos de diversidade.

Pergunto: isso é suficiente? Nem de longe.

Negros representam metade da população brasileira, mas só 15% dos magistrados, segundo levantamento recente do CNJ. Os números de escritórios são ainda mais tímidos: menos de 1% dos advogados, sócios e estagiários das bancas que compõem o CESA são negros.

A questão da participação das mulheres é igualmente delicada. Elas hoje compõem quase metade dos inscritos na OAB. Já superam os homens no número de novos advogados. Mas o percentual nem de longe se repete entre os sócios de grandes escritórios, altos magistrados e diretores jurídicos do país, que lideram nossa profissão. Não faz muito tempo, um conceituado site de empregos confirmou em pesquisa que os homens atuantes no segmento jurídico ganham em média 35% mais que seus pares mulheres.

Há várias soluções, algumas das quais em linha com a boa prática já adotada em outros países: precisamos reconhecer a diversidade da população dentro de nossas próprias organizações, aceitando profissionais em números que de fato espalhem nossa realidade social. Anacronismo anticapitalista? Pense de novo: Facebook, Google, Pinterest e outras tantas empresas relevantes já estabelecem em maior ou menor grau ações afirmativas para seus jurídicos internos e prestadores de serviços.

Devemos dar bolsas e reforço aos que precisam, para compensar hoje o “gap” de ensino que décadas de desigualdade criaram. Mas, sobretudo, impõe mudar de atitude. Não adianta se crer liberal e esclarecido entre um mar de rostos com a mesma cor, mentes iguais e opiniões similares.

As vantagens de “quebrar o molde” são inúmeras: as grandes histórias de desenvolvimento moderno são basicamente histórias de  competição e de diferença, de diversidade portanto. Elas nos ensinam que não devemos temer o “diferente”. Pelo contrário, devemos abraçá-lo, aprender com ele e buscar crescer juntos.

Desengravatar-se, finalmente!
Fonte: Jota - DF.